SOBRE A TEMPORADA 2020

A dicotomia “bem e mal” é uma das formas que usamos para manifestar nossas visões e opiniões. Uma classificação simples, que não leva em conta outras formas como a estética, a religião e os costumes, mas expressa nossa época de polarização, ataques, individualismo e falta de consenso.  

Ideias que também refletem o mundo com suas conquistas e consequências. A tecnologia abre caminhos, mas também aprisiona. O avanço trouxe o desenvolvimento e, ao mesmo tempo, criou incertezas. O homem é bom, mas nem sempre está disposto, consegue ou tem recursos para ajudar quem pede auxílio. O planeta é global e conectado, só que a velocidade da informação, a descrença nas instituições e os problemas como os conflitos que afetam civis, as crises ambiental e financeira e a injustiça social, têm nos tornado ansiosos e perversos. 
 
Muitos intelectuais defendem que as manchetes sensacionalistas, os profetas alarmistas das redes sociais, as fake news e os cenários de distopias e apocalipses influenciam as nossas decisões. A resposta de um futuro melhor para as pessoas pode estar na defesa de áreas que já foram valorizadas no Iluminismo: a razão, a ciência e o humanismo. Mesmo após o período histórico de enaltecimento do conhecimento e do humano, o mundo viveu e vive horrores como as guerras mundiais, as tensões sociais, o holocausto, a crise humanitária dos refugiados, entre outros. Construir um Novo Iluminismo ajudaria na resolução dos conflitos e impulsionaria o progresso, a renovação e a preservação.  

Uma nova corrente que poderia se adequar aos tempos atuais e privilegiar a sociedade como um todo, não apenas alguns setores. Valorizar as pessoas por trás das inovações. Iluminar as trevas e colocar o humano no centro de tudo, ressaltando o pensamento, a ética, a dignidade, a igualdade, a justiça e as capacidades humanas. Manter o essencial e iluminar o que é indispensável para que possamos descobrir, desvendar e reinventar o humano.   

Michel de Montaigne, filósofo que iniciou o gênero ensaio e escreveu a partir de sua própria vida, afirmava que a verdade é relativa, pois não existe uma universalidade aplicável a todas as pessoas. Somos complexos e, também, somos únicos. É, talvez, na autodescoberta, na ampliação das ideias e no olhar para dentro antes de julgar que pode ser possível enxergar uns aos outros com alteridade, empatia e tolerância. E resgatar o que significa ser, verdadeiramente, humanidade.