Quando a pandemia nos deixa sozinhos, ansiosos e deprimidos

Por Andrew Solomon / Tradução Bruno Mattos

 

Durante quase 30 anos, a maior parte de minha vida adulta, lidei com problemas de depressão e ansiedade. Embora nunca tenha me sentido sozinho ao enfrentar essas doenças tão frequentes – o segredo de família que todas as famílias têm em comum –, percebo que hoje tenho mais colegas de sofrimento do que jamais poderia ter imaginado.

Em um intervalo de poucas semanas, os sintomas para mim tão familiares das enfermidades mentais se tornaram uma realidade universal. Em uma nova pesquisa realizada pela Fundação Kaiser Family, quase metade dos participantes afirmou ter sua saúde mental prejudicada pela pandemia do coronavírus.

Quase todas as pessoas que conheço vêm sofrendo, em diferentes níveis, de pânico, pesar, desesperança e um medo paralisante. Se hoje alguém disser “Estou com tanto medo que mal consigo dormir”, talvez respondam “E que pessoa sã não está?”

Mas uma resposta assim poderia afastar nossa atenção de uma perigosa crise subjacente que vem se desdobrando em paralelo àquela mais evidente: uma disparada, tanto de curto quanto de longo prazo, da incidência de enfermidades mentais clínicas, cujos sintomas poderão persistir durante décadas após a pandemia retroceder. Se todos sofrem de depressão e ansiedade, os casos reais e clínicos de enfermidades mentais podem se desvanecer.

Embora tanto os governos estaduais (alguns espantosamente mais tarde que outros) como o federal tenham reagido de forma relevante à disseminação do coronavírus, poucos reconheceram o risco que esse cenário representa para o desenvolvimento de enfermidades mentais. O governador Andre Cuomo, do estado de Nova York, que já destacou mais de 8 mil profissionais de saúde mental para auxiliar os nova-iorquinos afligidos, é uma feliz exceção.

O governo chinês deslocou psicólogos e psiquiatras para Wuhan ainda durante o primeiro estágio da quarentena autoimposta. Nosso governo federal (EUA) não tomou nenhuma medida semelhante.

O tratamento desigual desses dois âmbitos de saúde (a física priorizada em detrimento da mental) está em consonância com a negligência contínua de nossa sociedade em relação à estabilidade psicológica. A cobertura oferecida pelos planos de saúde não pode ser equiparada, e o tratamento para transtornos de humor costuma ser visto como um luxo. Mas estamos enfrentando uma dupla crise, de saúde física e mental, e os indivíduos acometidos por distúrbios psiquiátricos merecem ser reconhecidos e tratados.

Os efeitos de uma pandemia sobre a saúde mental foram identificados há muito tempo, mas têm sido deliberadamente ignorados pelo governo federal. Um estudo realizado após o surto de H1N1 em 2013 afirmou: “Como os desastres pandêmicos são episódios únicos e não incluem centros para apoio e tratamento contínuos, eles exigem estratégias de reação específicas para satisfazer às necessidades comportamentais de saúde de famílias e crianças. Os planos de enfrentamento de pandemias devem atender a tais necessidades”. Outro estudo observou que “Se por um lado dispomos de cada vez mais informações referentes aos aspectos médicos de um surto, há poucas referências sobre como as instituições de saúde devem lidar com os aspectos psicológicos de um desastre de grande escala que envolva uma disparada de mortes de cunho psicológico”. 

De modo geral, há quatro reações possíveis à crise do coronavírus e ao decorrente isolamento social. Algumas pessoas conseguem lidar bem com a situação e encontrar forças em sua inabalável estabilidade psíquica. Outras pertencem à categoria dos saudáveis preocupados, que só precisam de primeiros-socorros psicológicos. Há um terceiro grupo que jamais sofreu desses distúrbios antes, mas se vê sugado para dentro deles. Por fim, há muitos indivíduos que já sofriam de grandes transtornos depressivos e tiveram sua condição exacerbada, desenvolvendo o que psicólogos clínicos chamam de “dupla depressão”, na qual um distúrbio depressivo duradouro acaba sobreposto por um episódio de dor insuportável.

O isolamento social desencadeia ao menos tantos distúrbios mentais quanto o medo do vírus em si. A psicóloga Julianne Holt-Lunstad descobriu que o isolamento social é duas vezes mais prejudicial que a obesidade para a saúde física de uma pessoa. O confinamento solitário em sistemas prisionais provoca ataques de pânico e alucinações, dentre outros sintomas. O isolamento pode até mesmo tornar as pessoas mais vulneráveis à doença que deve combater: pesquisadores determinaram que “o sistema imunológico de uma pessoa solitária responde de forma diferente ao combater um vírus invasor, tornando-a mais propensa a desenvolver uma doença”.

A ideia de que as coisas não vão bem é razoável; a ideia de que agora nada jamais ficará bem pode ser indício de uma condição clínica. O ajuste gradual às nossas novas circunstâncias é algo esperado; a sensação de que cada dia é mais insuportável que o anterior é patológica. Existe uma linha muito tênue entre a ansiedade razoável e a ansiedade desenfreada e injustificada. Sei que carrego as duas dentro de mim, mas tentar separá-las é como desatar um nó górdio.

A crise atual traz dois desencadeadores de enfermidades mentais: a tristeza, quando tememos por nossas vidas, e o estresse, quando nossos laços emocionais são enfraquecidos pelo isolamento social. Enquanto país, não tomamos as medidas adequadas para enfrentar nenhuma dessas duas crises, e nos saímos especialmente mal no segundo caso.

Por ora, não é possível conter a disseminação do vírus, mas o medo antecipatório que ele instiga pode ser mitigado por técnicas já consolidadas, como o aumento de doses medicamentais e um contato mais frequente com o terapeuta. Buscar esse tipo de apoio não é sinal de fraqueza ou fracasso. Faça o que for necessário para evitar o colapso mental. É muito mais fácil preveni-lo que remediá-lo, e dispomos de ferramentas eficazes para enfrentar as sobrecargas psíquicas.

Também é possível remediar o isolamento. Um coquetel de reuniões no Zoom e no FaceTime pode não ter nenhuma eficácia para muitos pacientes, e deve-se analisar caso a caso se os benefícios de um encontro com alguém que você ama (mesmo a uma distância superior a dois metros) para a saúde mental superam os riscos físicos que esse mesmo encontro implica.

O medo do contágio fez com que muitas pessoas adotassem um comportamento que exacerba a depressão e a ansiedade e, portanto, pode levar ao suicídio – aumentando a mortalidade da Covid-19 dentre pessoas que nem sequer a contraíram. Pessoas solitárias podem sucumbir ao mal da “privação de toque” e devem ser acolhidas. A Dra. Tiffany Field, diretora do Instituto de Pesquisa sobre o Toque da Faculdade Miller de Medicina, na Universidade de Miami, afirma que a falta de contato táctil agrava a depressão e enfraquece o sistema imunológico. Contatos positivos por meio do toque estimulam o nervo vago e reduzem os níveis de cortisol, um hormônio do estresse que pode prejudicar a resposta imunológica. Deveríamos investigar quando e como as pessoas privadas do toque podem receber o contato físico de que necessitam da forma mais segura possível. Não será completamente seguro, como tampouco é a privação sensual. Se pessoas estiverem morrendo por não serem tocadas, o toque, mesmo que regulado, torna-se um remédio necessário. Não é nem caro, nem complexo.

Essas são formas de superar as patologias. Como alguém que já sofreu de depressão e ansiedade, jamais tive interesse em participar de um curso relâmpago de empatia, mas foi isso que aconteceu. Sinto-me em uma situação privilegiada para confortar as pessoas que estão mergulhando fundo pela primeira vez na depressão, e mantenho contato diário, seja físico ou psicológico, com aqueles que precisam. Tornou-se uma de minhas vocações.

Posso ajudá-los a identificar o que é patológico e remediável. Conheço essas sinucas de bico – e as jogadas para escapar delas – como a palma da minha mão.

Não que um antidepressivo possa eliminar o medo que as pessoas têm desse vírus terrível e misterioso, ou que um único abraço vá mitigar a solidão profunda, mas ambos podem ajudar.

Um dia desses, meu filho (que cursa a quinta série) perguntou com voz trêmula: “Quanto tempo vai demorar pra eu poder ver meus amigos de novo? O que vamos fazer se ‘cancelarem a colônia de férias?’’. E então perguntou, a voz ainda mais trêmula: “E se você e o papai morrerem? O que vai acontecer comigo?” Estaria ele manifestando algumas de minhas tendências depressivas, ou estava apenas triste e com medo? Ele se animou logo em seguida e não voltou a falar no assunto desde então, embora eu tenha deixado claro que ele pode fazer isso. Manter o ânimo na frente dele é um projeto que me traz grande motivação. A obrigação de negar uma depressão pode ser uma forma perigosa de tirania social, mas esconder seus sinais externos de alguém mais vulnerável por vontade própria ajuda a me afastar da beira do abismo. Em parte por causa de meu filho, ajustei minha medicação e tenho mantido contato com meu terapeuta. Além disso, faço questão de abraçar ele e meu marido, pois sei que cada um de nós três é a salvação dos outros dois.

Caminho diariamente no bosque com meu filho e nosso cachorro. Às vezes, meu filho e eu pulamos na cama-elástica, algo que, embora me dê dor nas costas, me proporciona grande conforto físico. Meu marido, meu filho e eu nos aconchegamos juntos todas as noites para assistir a um filme. Além disso, meu marido tem lido obsessivamente livros sobre epidemias, da Peste Negra à pandemia de gripe espanhola em 1918, e estudado português on-line. Todos encontramos conforto à nossa curiosa maneira.

As autoridades continuam dizendo que o coronavírus será como uma gripe para a maioria dos contaminados, mas tem maior letalidade entre pessoas mais velhas ou com certas doenças crônicas. A lista de doenças crônicas, no entanto, deveria incluir a depressão causada pelo medo, pela tristeza e pela solidão. Deveríamos reconhecer que há uma grande parcela de gente para quem medicamentos não são indulgências e o toque não é um luxo. E que, para muitos de nós, o protocolo de lavar as mãos com álcool gel e vestir máscaras inadequadas não é nada se comparado à tarefa diária de desinfetar nossa própria mente.